A insustentável leveza das partidas

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A Partida  (Okuribito, 2008) é o filme japonês a receber um Oscar em 2008. E o texto começa a partir desta informação não por que os prêmios da academia sejam parâmetro de qualidade no universo das pessoas que fazem este blog – ela compartimenta o mundo inteiro (fora dos EUA) na categoria de cinema estrangeiro e os vencedores costumam ser filmes realizados em países de maioria caucasiana, fatos que, por si, são um atestado de etnocentrismo. Mas, sim, foi a premiação que me fez tomar conhecimento dele.

Como participava de um bolão, assisti à cerimônia pela TV e fiquei surpresa ao ver o azarão japonês desbancar a favoritíssima animação israelense Waltz with Bashir  – uma bela esquivada americana, não premiando um filme com implicações políticas evidentes. Contradições à parte, Okuribito é um filme que merece ser reconhecido e certamente será apreciado por grandes platéias pois tem todos os elementos que fazem um bom melodrama. Uma bela canção incidental, que por vezes dá “voz” ao sentimento do personagem central, atores sensíveis e expressivos e uma direção que prima pelo intimismo.

A câmera se coloca como o olho do observador, numa perspectiva que nos faz sentir comodamente sentados naquele canto da sala em que podemos conhecer o entorno das personagens e a intimidade de suas casas: onde e o quê comem, os detalhes da porcelana sobre a mesa, onde dormem, onde se banham, os objetos em sua escrivaninha, os vasos de plantas estrategicamente espalhados, o lugar em que assistem TV e, principalmente, suas ante-salas, fechadas para os rituais restritos aos pequenos círculos de amigos e familiares.

Para falar da estranheza da morte numa cultura que a repele, o diretor Yojiro Takita ritualiza a preparação dos mortos para os funerais, nos ensinando a lógica das partidas. 

O filme aborda algumas questões que parecem ser recorrentes no cinema japonês: a valorização do trabalho, a família e a devoção pelo cotidiano. Sua grande qualidade é fazer com que estes três eixos da existência conversem e cheguem a uma conclusão, tendo a morte como cenário. Ao final, percebemos que a fatalidade da vida é trivial como qualquer outra coisa dentro desta.

E isto acontece quando acompanhamos a trajetória do nosso herói Daigo Kobayashi, um rapaz que trocou a cidade pequena pelas grandes possibilidades de Tóquio para realizar o sonho de seus pais: ser um músico notável. Um destino traçado quando, ao três anos, ele ganha do pai um violoncelo.

carta de pedra

Quando finalmente se tornar violoncelista da orquestra de Tóquio, logo após a sua primeira apresentação ele recebe a notícia de que, sem patrocínio, a orquestra estava desfeita.
Vendo o sonho de uma vida desmanchar diante dos seus olhos, ele percebe, com certo alívio, que talvez ser músico não fosse uma escolha sua. Decide recomeçar e propõe a sua  esposa Mika (Ryoko Hirosue), uma jovem web designer esfuziante o tempo inteiro, que tentem a vida em sua cidade de origem, onde poderiam estabelecer-se na casa que sua mãe havia lhes deixado como herança. Com espírito otimista e assumindo a postura cuidadora que a cabe às mulheres nos momentos de adversidade, a moça consente, e segue os rumos do marido.

E é lá que ele se depara com a inusual e constrangedora oferta de trabalhar como assistente numa empresa funerária. Emprego que aceita cabisbaixo, também para cumprir sua tarefa de prover o sustento de sua pequena família (sim, estamos falando do Japão, onde a honra do homem é estreitamente associada ao seu papel como provedor e ao desempenho no mundo do trabalho).

E o filme nos faz refletir sobre esse “valor” ao nos mostrar uma tarefa depreciada por quase todas as pessoas da trama sendo executada com tanta beleza e reverência.

A preparação dos cadáveres, com a leveza e o detalhe próprios da cultura japonesa, mostra-se uma arte zen e similar aos arranjos florais ou à pintura em aquarela, o que torna mais digno o ato da despedida.

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Daigo faz de seu novo emprego e dessa nova relação com a morte um reencontro com sua própria história.  Para isto, no entanto, precisa revirar as caixas tormentosas do passado e realizar as suas próprias despedidas.  Junto com ele, aprendemos sobre a importância das coisas simples dessas nossas vidas breves.

Okuribito é filme para enternecer. Conta com bela fotografia, cenografia bem cuidada e excelentes atores – inclusive os coadjuvantes. E tudo isto ao som de violoncelo.

Drops

:: A idéia original do filme partiu do ator Masahito Motoki, após ler um livro sobre a cerimônia do Noukan (acondicionamento dos mortos).

:: O título original “Okuribito” significa  “enviar pessoas” (no site do imdb:”the sending [away/off] people”) , mas essa palavra não é comumente usada no Japão.

:: Motoki fez laboratório, atendendo a cerimônias funerárias e também estudou violoncelo.

:: O filme foi rodado em dez anos.

:: O diretor estava muito receoso quanto à recepção do filme, já que  a morte é um grande tabu no Japão.

Fontes: Wikipédia, imdb.

~ por D. em Maio 25, 2009.

5 Respostas to “A insustentável leveza das partidas”

  1. Que belo texto. Conseguiu passar exatamente o que eu acho que o filme irá dizer. Nem preciso citar que estou correndo atrás dele já. Aí faço um comentário mais contextualizado.
    Beijos!

  2. Ah, saudade desse cantinho inspirador aqui!

  3. Belo, vai directo a meu twitter!

  4. Acabei de perceber que preciso ver mais filmes asiáticos.

  5. Acabo de assistir ao filme e realmente é uma coisa preciosa e maravilhosa.
    “Melancolicamente gostoso” – como dizia o chefe dele ao apreciar as comidas.
    Lindo.
    Lindo!
    Obrigada, Dai, pela indicação.
    Beijos

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